Brasil: Greve de caminhoneiros começou em churrasco em Mato Grosso

Caminhoneiros fazem protesto na BR-101, em Três Cachoeiras, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. (Foto: Ronaldo Bernardi/Agencia RBS/Agência O Globo)

A greve dos caminhoneiros autônomos que atormenta a população e o governo federal começou num churrasco na cidade de Lucas do Rio Verde (MT), a 360 quilômetros de Cuiabá, um dos principais polos agrícolas do país. Revoltados com o aumento de seus custos – e do preço do diesel, em especial –, caminhoneiros autônomos, pequenos e médios empresários do ramo do transporte de carga passaram o Carnaval discutindo, em churrascos, o que fazer para reverter a situação de crise no setor. Após dias de conversa, decidiram que a melhor forma de chamar a atenção do governo era paralisar rodovias do Estado. 
Como um rastilho de pólvora, o movimento se espalhou pelo Brasil. Nos dias seguintes, caminhoneiros de cidades vizinhas e de Estados como Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul entraram em contato com os colegas de Lucas do Rio Verde para saber como eles estavam atuando. “A ideia foi nossa, dos empresários do transporte aqui da cidade, devido ao alto custo operacional. Não há nenhum sindicato. Chegamos a um ponto em que estava todo mundo morto, ninguém conseguia salvar ninguém. Fizemos uma reunião e começamos a colocar caminhão na pista e paralisar”, diz Gilson Baitaca,  empresário do ramo de transporte em Lucas do Rio Verde.
 
 
 
 
 
 
A expansão de um movimento que começou despretensioso e tomou conta do país, causando milhões de reais em prejuízos e deixando diversas cidades do interior do país sem abastecimento de gasolina por alguns dias, fez com que o governo federal tivesse de chamar representantes do setor para negociar. Como o movimento havia se espalhado por diversos Estados e não havia lideranças específicas com quem o Palácio do Planalto pudesse dialogar, o governo optou por convocar para uma reunião, na última quarta-feira, representantes de alguns sindicatos.  “Nós sentamos com o governo para achar uma solução de um pacote. Conversamos muito com os ministros pra ver se conseguíamos abaixar o preço do diesel. Só essa discussão do preço do óleo levou quase cinco horas dentro da sala. O governo não queria ceder”, diz Everaldo Bastos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Autônomos de Carga do Vale do Paraíba, um dos chamados ao Planalto.
Após mais dez horas de negociação, comandada por Miguel Rosseto, ministro da Secretaria Geral da Presidência, governo e sindicatos anunciaram um acordo, na madrugada de quinta-feira. Na teoria, o acerto significaria o fim das paralisações pelo país. No pacote de medidas oferecido pelo governo estavam  a renegociação de dívidas do setor, a garantia de que o preço do diesel não subirá pelos próximos seis meses e a elaboração de uma tabela referencial para o preço dos fretes. A tabela será feita em conjunto pelas entidades dos caminhoneiros e das transportadoras com os embarcadores. A negociação será mediada pelo Ministério dos Transportes no próximo dia 10 de março. No entanto, o ministro dos Transportes, Antonio Carlos Rodrigues, deixou clara a condição básica para que tudo isso ocorra. “Só vai ser cumprido o que nós combinamos na hora que as estradas forem liberadas”, disse Antônio Carlos Rodrigues.
>> Paralisações continuam mesmo após acordo entre caminhoneiros e governo
Como o movimento é autônomo e sem liderança hierarquizadas, caminhoneiros de diversos Estados do país estão mantendo a paralisação das estradas, mesmo após o anúncio do acordo e do pacote de medidas proposto pelo governo. ”Essas medidas do governo são reivindicações que estão na pauta, mas não atendem as nossas necessidades. Estamos aguardando e não retornaremos ao trabalho sem a tabela de fretes mínimos. Esse é o fator principal”, diz Gilson Baitaca. Ele afirma que tudo continuará parado no Mato Grosso enquanto a principal reivindicação não for atendida, mesmo o governo já tendo marcado um encontro para resolver a questão dos preços dos fretes para o início de março.  “Se não tiver nenhuma solução até dia 10, vamos ficar parados até lá. Acho que o governo não vai esperar tanto porque vai comprometer a safra da soja e a plantação do milho”, diz Baitaca.
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Irritado com a postura dos caminhoneiros e com visível dificuldade para negociar com o movimento, o governo federal anunciou na última quinta-feira que os caminhoneiros que insistirem nos bloqueios passarão a ser multados. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que a Polícia Rodoviária Federal passará a multá-los com valores que variam entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. “A decisão do valor não é do governo, é da Justiça. Estamos cumprindo ordens judiciais”, disse Cardozo. A Associação Brasileira de Logística e Transporte de Carga avalia que o prejuízo à economia causado pelas paralisações supere o valor de R$ 20 milhões por dia.
Precursores do movimento que assusta e causas sérios problemas para o governo federal, os mato-grossenses não parecem satisfeitos com o fato de nenhum líder local ter sido convocado para a reunião em Brasília, que reuniu presidentes e diretores de sindicatos de todo o Brasil. “Não havia representante do Mato Grosso nas negociações com o governo. Esse pessoal que foi negociar não tinha competência para estar negociando”, disse Miguel Mendes, diretor-executivo da Associação dos Transportadores de Carga do Mato Grosso. Mesmo após ter enfrentado grandes manifestações de rua, desde junho de 2013, o governo parece ainda não ter encontrado a melhor forma de negociar com movimentos horizontais, órfãos de grandes líderes.


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